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domingo, 16 de setembro de 2012

(Re)Começar




Ela olhou para os lados com aquela expressão que só ela conseguia fazer e encaixou novamente seus fones de ouvidos sem dar importância a nada. Alguns interpretavam aquela atitude como nervosismo, outros como mal humor e alguns brincavam dizendo que era tpm mas, dentro dela estava acontecendo uma guerra. Só ela sabia de como aquela vontade de gritar a perturbava, e aquele nó fazia reflexo no corpo todo e a dor a consumia. O seu som fazia todos esses efeitos diminuírem, ela viajava com suas musicas e se esquecia de todos em sua volta, e isso dava tranqüilidade a ela. Já tinha algum tempo que ela havia se esgotado das pessoas, de suas mentiras e suas falsidades porem, algo ainda fazia ela não desistir. Ela se esgotou e desistiu, cansou de tudo e todos. Sem saber pra onde correr se refugiou em si mesma. A guerra estava cravada. Todos seus problemas, tormentos, magoas e decepções se acumularam e explodiu como uma bomba dentro de si. O estrago foi tão grande que abalou todas suas estruturas ate seu ponto mais forte. Ela sabia que daquela vez, ela realmente estava no fundo do poço e o pior, não havia ninguém para socorrer. O desespero tomou conta do seu ser, sua cabeça doeu por dias e sua expressão não mudou e sua voz se quer saiu. Ela estava abalada, exausta de resolver sempre as coisas, de ser forte o tempo todo. A ultima briga, foi o ápice para acabar com tudo. Ela foi chamada de árvore seca que não gera frutos. Ela que sempre mantinha o sorriso no rosto e tentava confortar a todos esquecendo muitas vezes dela mesmo, seria ela então uma arvore seca? Ela não sabia por onde se organizar, os dias corriam e só traziam mais decepções. A musica a embalou por semanas enquanto seus pensamentos iam se organizando e algo ia dizendo a ela "Pô, acorda menina. Dá a volta por cima. Seja forte. Seja você''. Os dias passaram, ela tirou o fone de ouvido e teve um choque. Imediatamente seus pés sentiram o chão firme novamente e ela respirou fundo sentindo aquela brisa tomar conta do seu corpo que já havia cicatrizado e ela teve certeza que havia mudado. Ela voltou a caminhar mais segura de si mesmo. Os outros agora a chamavam de anti-social, mas ela sabia que não era isolamento, era preguiça de se socializar com pessoas imbecis. A dor e sua experiência a transformou. Ela estava com novos pensamentos, novos olhares e novas expectativas. Ela zerou tudo em sua vida e começou novamente. Sim, ela zerou suas amizades, seus colegas, seus conhecidos, seus apoios e suas prioridades. Dai pra frente ela sabia que só ocuparia algum lugar em sua vida quem merecesse. Mesmo estando sem forças para lutar contra os filhos da puta que queriam a ver mal, ela continuo sorrindo de cabeça erguida. Ela estava confiando em si mesma de novo, se permitindo, porque ela sabia que podia muito, que merecia muito. Uma coisa ela aprendeu com tudo isso: A vida te muda, mesmo você não querendo. Ela te obriga a crescer, te obriga a mudar. Ela começou a ser melhor com ela mesmo, menos dura. Ela estava se recompondo aos poucos ainda, mas, havia dado o primeiro passo que era COMEÇAR! E dessa vez ela não conseguia se segurar e não gritar: "Que venham novos sorrisos. As novas histórias e novas pessoas!"

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ausência

"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida e eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada". Vinícius de Moraes.

sábado, 2 de julho de 2011

Romeu e Julieta

Certa vez conheci um cara, idiota e apaixonado por sinal, e ele soava bobo a cada palavra que dizia. Sempre com suas músicas próprias, cantando por ai, fazendo serenatas para quem quisesse ver, quem quisesse ouvir. A cada encontro aleatório pela rua esse cara dizia "Eu e você, que tal?", meio sem pretensão nenhuma de chegar realmente a algum lugar, talvez esperando assim encontrar a sua Julieta. E de fato ele havia encontrado! Nem alta, nem baixa, bonita, doce, extressada, cabelos médios e castanhos, sorriso delicado e bonito, e olhos arrebatadores e confusos. Mas um porém, ela tinha alguém e esse cara, Romeu, insistia em lhe fazer serenatas aleatórias. Ele tentou, conseguio, jogou dados de jogos de sorte, mas não contava com o porém de perder seu coração num jogo que parecia ter tudo para dar certo. Talvez tenha sido apenas a hora errada, talvez a canção do filme que ele viu não tenha sido a certa para cantar naquela noite ou então fosse simplesmente a hora errada. Era um sonhador, eterno sonhador, andando por ruas turvas, sujas e malvadas. Mas dentre toda a podridão de ruas vergonhosas existia sempre um sonho, esse sonho que não era dele, eram de todos, talvez de Julieta. Ele apenas sonhava, por ele e por ela. E o engraçado é perceber que esse jogo de cartas de copas não passava de um acordo, Romeu era apenas um acordo, foi apenas aquele que ela achou enquanto se recuperava de ter perdido seu outro alguém. E ele dizia, gritava que a amava como as estrelas no céu, e amaria até morrer e que sempre existirá um lugar só para eles, mas ele é tolo, não consegue fazer uma canção de amor direito, sem ser clichê.Tudo o que ele fazia era sentir falta de Julieta e o jeito que costumavam ser, mantinha o ritmo e as más companhias e a beijava pelas barras de uma rima clichê. E um Romeu apaixonado cantava serenatas para a rua, acalmando todo mundo com uma canção de amor que ele fez. Encontrando uma luz conveniente, saindo da sombra e dizendo algo como "Eu e você querida, o que você acha?". Atordoado e apaixonado Romeu.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

"Quem foi que disse que a vida é uma competição? A mídia? Daqui a pouco é marido contra mulher, irmão contra irmão e por aí vai. [...] A minha pobreza é a minha riqueza, sabe? E nessa sociedade competitiva, a minha derrota é a minha vitória". (Eduardo Marinho)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Cedo ou Tarde

Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.

Albano Martins
Faça os gestos certos,
o destino vai ser teu aliado,
ouço uma voz dizendo do fundo mais fundo do passado.

Hoje, não faço nada direito,
que é preciso muito mais peito
pra fazer tudo de qualquer jeito.

Ai do acaso, se não ficar do meu lado.

paulo leminski

sábado, 2 de abril de 2011

A Arte do Esquecimento

TALVEZ O MAIOR pesquisador na área da Memória nos últimos 50 ou 60 anos, James McGaugh, da Universidade de Califórnia em Irvine, num livro publicado em 1971, apontou que "talvez o aspecto mais notável da memória é o esquecimento" (Harlow et al., 1971).

De fato, esquecemos a imensa maioria das informações que adquirimos. Todos reconhecem que a infância é o período mais importante de nossa vida, porém, se nos convidarem a relatá-la, nenhum de nós levaria mais do que umas poucas horas. O médico que mais sabe sobre Medicina poderá expor tudo o que sabe também, no máximo, em poucas horas. A maioria de nós lembra com detalhes o que estava fazendo, onde e com quem, no momento em que morreu Ayrton Senna; ninguém se lembra do que aconteceu 24 horas antes ou depois. A morte do Senna é uma memória altamente emocional, que recordaremos sempre porque foi gravada de maneira indelével (ver comentário no final deste artigo); as memórias do dia anterior e do dia posterior correspondem a memórias inexpressivas, que logo esquecemos para sempre.

Há várias razões e mecanismos para isso. Para começar, os mecanismos da memória se saturam (Izquierdo, 2002). Para continuar, Jorge Luis Borges, num conto chamado "Funes o Memorioso", demonstrou, pelo absurdo, que lembrar tudo é impossível. O personagem, Funes, pode lembrar até o último detalhe um dia inteiro de sua vida, mas, para fazê-lo, requer outro dia inteiro de sua vida, o que é impossível (Borges, 1943).

De fato, é necessário esquecer, ou pelo menos manter longe da evocação muitas memórias. Há muitas que nos perturbam: aquelas de medos, humilhações, maus momentos. Há outras que nos prejudicam (fobias) ou nos perseguem (estresse pós-traumático). Em razão do problema da saturação, existem memórias que nos impedem de adquirir outras novas ou adquirir outras antigas, mais importantes (por exemplo, como fugir em uma situação de medo).

Borges, em seu conto, aponta que Funes era "incapaz de esquecer para poder pensar, (pois) para pensar é necessário esquecer (detalhes) para poder fazer generalizações".

Formas de esquecimento

Há várias. A mais estudada é a extinção, à qual dedicaremos algumas linhas a seguir. Outra, popularizada por Freud, é a repressão, talvez vinculada com a anterior. Existem memórias que não ultrapassam poucos segundos, e ficam na memória de trabalho. Outras não ultrapassam a memória de curta duração (e não ficam na memória de longa duração). Outras memórias duram poucos dias e depois desaparecem. Por último, há o esquecimento real: memórias que desaparecem por falta de uso, com atrofia sináptica.

Extinção

Descoberta por Pavlov há mais de um século, a extinção se deve à desvinculação de um estímulo condicionado do estímulo incondicionado com o qual tinha se associado e gerado uma resposta aprendida; o estímulo passa a se vincular com a ausência desse último estímulo. Por exemplo, se associamos uma campainha (estímulo condicionado) com um choque elétrico (estímulo incondicionado) e com isso se gera uma resposta de flexão, e passamos a apresentar à campainha isolada, sem o choque, essa aos poucos irá se associando com a falta de choque e a resposta de flexão será suprimida. A campainha deixa de sinalizar um choque; passa a sinalizar que não virá mais um choque. Se vamos todos os dias a um guichê onde recebemos dinheiro, e a partir de certo dia lá não nos dão mais dinheiro, associaremos o guichê com a falta de dinheiro.

Isso tem um tremendo valor adaptativo, porque nos impede de insistir na realização de comportamentos (ou em manter pensamentos) que já não se ligam mais com a realidade. A partir da última série da escola, não precisamos mais nos lembrar daquele professor de aspecto feroz...

A extinção foi muito estudada em nossos laboratórios. Depende da ativação de receptores glutamatérgicos NMDA (N-metil-D-aspártico), proteína cinase dependente de AMPc (PKA), proteínas cinases reguladas extracelularmente (ERKs), proteína cinase dependente de cálcio e calmodulina (CaMKII), expressão gênica e síntese protéica em uma ou mais das seguintes estruturas: hipocampo, amígdala basolateral, córtex entorrinal e área pré-frontal ventromedial (Vianna et al., 2001, 2004; Milad & Quirk, 2002; Bevilaqua et al., 2006). A relação com uma ou outra estrutura depende da tarefa utilizada em animais (Myers & Davis, 2002); o córtex pré-frontal ventromedial parece ser necessário para todas, e nele a extinção se correlaciona com atividade elétrica específica e há necessidade de síntese protéica. A participação de várias dessas estruturas na extinção do medo aprendido foi confirmada por ressonância magnética funcional em humanos (Phelps et al., 2004).

Utiliza-se desde Freud (1959) a extinção na terapia do medo aprendido. Ele e seu discípulo S. Ferenczi a aplicaram em um caso de fobia, dando-lhe o nome de "habituação" (Freud não tinha simpatia alguma por Pavlov, para quem a habituação era outra coisa (Vianna et al., 2000)). O sucesso foi imediato e, a partir deles, a extinção foi largamente empregada no tratamento do medo aprendido (Rothbaum & Schwartz, 2002; Cammarota et al., 2003). Nos últimos anos, tem sido empregada como tratamento de escolha na terapia do TEPT (transtorno de estresse pós-traumático); alguns autores norte-americanos preferem chamá-la de exposure therapy (Beckett, 2002; Rothbaum & Schwartz, 2002). Na extinção, de fato, o terapeuta faz uma (sobre)exposição do paciente a fotografias ou a outras circunstâncias pertinentes ao trauma inicial, salientando a ausência de conseqüências perigosas ou assustadoras nessa exposição. Em trabalhos recentes, nosso grupo estudou de maneira paramétrica como pode ser feita essa sobreexposição do antigo estímulo condicionado sem conseqüências temíveis no rato; foi obtida uma extinção completa que requereu nova expressão gênica e síntese protéica no hipocampo para restabelecer a resposta original (Cammarota et al., 2003).

Repressão

Um dos postulados mais heurísticos de Freud foi o da repressão de memórias. Essa pode ser voluntária ou inconsciente. Na primeira, propomo-nos a cancelar a evocação de memórias que nos causam desagrado, mal-estar ou prejuízo: "Não quero me lembrar mais da cara daquele sujeito (ou daquele lugar, ou daquele incidente)". Na segunda, o cérebro faz isso por conta própria, para o qual evidentemente tem uma tendência autoprotetora. Há muitas evidências de que ambas as formas de repressão representam, essencialmente, a mesma coisa. Se o cérebro reprime determinada(s) memória(s), deverá ser em razão de um estímulo originado em algum lugar, seja esse voluntário ou não. Esse estímulo deve provir da própria memória, por definição.

Anderson et al. (2004) estudaram a atividade de várias áreas cerebrais na repressão voluntária, tomada explicitamente como exemplo das duas formas de repressão. Verificaram que no momento da repressão ativa-se o córtex pré-frontal ântero-lateral, concomitantemente com uma diminuição da atividade do hipocampo, área vinculada fortemente com a evocação.Ou seja, uma região diferente do córtex pré-frontal vincula-se com a repressão. Estudos recentes de nosso laboratório apontam, porém, para uma relação estreita entre ambas as regiões pré-frontais, em relação à construção de memórias de longa duração a partir da informação que elas processam durante a prática da memória de trabalho.

A extinção e a repressão não equivalem ao esquecimento real

Tanto as memórias extinguidas como as reprimidas podem voltar à tona, quer espontaneamente quer como conseqüência de estímulos específicos (Rescorla, 2001; Izquierdo, 2002; Cammarota et al., 2003). Não correspondem, portanto, ao conceito de esquecimento real, pelo qual as memórias efetivamente se perdem. Os mecanismos da extinção e da repressão são ativos e envolvem a inibição específica de uma ou mais memórias por intervenção de mecanismos nervosos determinados (córtex pré-frontal ventromedial, hipocampo, amígdala, córtex entorrinal em um caso; córtex pré-frontal ântero-lateral, hipocampo em outro). Na extinção, os mecanismos moleculares que a sustentam são em boa parte conhecidos (ver acima).

A persistência das memórias por períodos curtos também não corresponde ao esquecimento real

Há formas de memória que duram poucos segundos ou minutos (memória de trabalho) ou poucas horas (memória de curta duração).

A memória de trabalho retém as informações na medida em que essas vão aparecendo, essencialmente on-line ou por um curto tempo a seguir. Um bom exemplo é o da terceira palavra da frase anterior; todos a retiveram só o tempo suficiente para entender essa frase, e talvez a seguinte. A essa altura, já a perderam; se não voltarem atrás para relê-la, não a recordarão.

A memória de curta duração é um processo mnemônico desenvolvido no hipocampo e no córtex entorrinal, utilizando mecanismos em boa parte próprios e independentes das memórias de longa duração que ao mesmo tempo estão sendo geradas (Izquierdo et al., 1998). Dura no máximo seis horas e serve ao propósito de um albergue provisório para a informação que depois poderá ou não ser armazenada como memória mais estável ou permanente; corresponde ao que William James (1890) denominava "memória primária".

A maior parte dos componentes da memória de trabalho desaparece em segundos; os da memória de curta duração não persistem além de umas poucas horas, a menos que se tenha conseguido construir uma memória de longa duração ao mesmo tempo (Izquierdo et al., 1998; Izquierdo, 2002).

A não-persistência dessas memórias mais breves decorre de seu papel fisiológico e não implica esquecimento algum. Um jogador de futebol se lembrará da cara daquele jogador do time oposto que o perseguia durante o jogo; depois, especialmente se seu time ganhou, o esquecerá. Se for de algum adversário longínquo (coreano, suíço), esquecerá para sempre.

E as memórias que duram poucos dias?

Todos nós que alguma vez estudamos para uma prova (o vestibular, por exemplo) sabemos que há memórias que não persistem além da prova. Um ou dois dias depois as esquecemos para sempre.

Numerosos trabalhos demonstram que na construção de uma memória de longa duração são necessárias a expressão gênica e a síntese protéica nas primeiras três a seis horas, no hipocampo ou em outras regiões vinculadas a esse processo (cf. Cammarota et al., 2003; Izquierdo et al., 2006). Estudos recentes feitos pelo grupo de J. H. Medina em Buenos Aires, em colaboração com o nosso, sugerem que há um segundo processo que envolve síntese protéica no hipocampo doze horas depois da aquisição, pelo qual as memórias persistem para além das 48 horas depois de apreendidas. Esse processo pode se denominar "manutenção" e requer também pelo menos um fator neurotrófico (o BDNF) no hipocampo, ao mesmo tempo que requer síntese protéica, isto é, doze horas depois de ter adquirido uma memória.

O esquecimento real

Como vimos no início, porém, além das diversas maneiras que existem de inibir a evocação e/ou de "escantear" memórias, há muitíssimas dessas que se perdem inexoravelmente e de forma irreversível. Ninguém se lembra do que fez na tarde de 4 de agosto de 1996 ou na hora seguinte após ter visto determinado filme. A menos que essa data ou essa hora tenha coincidido com algum evento emocionalmente forte. As memórias com conteúdo emocional forte são gravadas com participação das vias nervosas que regulam as emoções, que agem estimulando vias enzimáticas hoje bem determinadas no hipocampo e outras regiões a ele ligadas (a via da PKA). Essas vias estimulam indiretamente a formação de novas sinapses como sustentáculo dessas memórias e essas costumam, assim, persistir muitos meses ou anos (Izquierdo et al., 2006).

Fora dessas memórias, as demais, no entanto, duram pouco tempo; e se não repetidas (se não revividas), desaparecem por falta de uso. A falta de uso causa atrofia das sinapses (Eccles, 1957), e isso explica desde há pelo menos cinqüenta anos por que as memórias nunca lembradas, assim como os movimentos não mais feitos ou os pensamentos nunca mais revisitados, desaparecem.

A memória é a função cerebral que mais se encaixa com o dito de que "a função faz o órgão". Se praticada intensamente, a memória como função não esmorece; se não recordada, dissolve-se no esquecimento. Muitos trabalhos recentes indicam como isso é possível (Nader, 2003; Rossato et al., 2006).

A melhor forma de manter viva a memória, em geral, é por meio da leitura (Izquierdo, 2002). A melhor forma de manter viva cada memória em particular é recordando-a. Como isso nem sempre é possível, e certamente não desejável, devemos nos aprimorar na prática da arte de esquecer, tão cantada pelos poetas, desde Ovídio até Borges.


(Iván Izquierdo; Lia R. M. Bevilaqua; Martín Cammarota)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Menestrel

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se. E que companhia nem sempre significa segurança. Começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas.Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.Aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que, não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.Descobre que se leva anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la… E que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprende que não temos de mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam…Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa… por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.
Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas para onde está indo… mas, se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve.Aprende que, ou você controla seus atos, ou eles o controlarão… e que ser flexível não significa ser fraco, ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem, pelo menos, dois lados. Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se. Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens… Poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém… Algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar.Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, em vez de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida! Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Você sorriu e disse:

- Eu gosto de você também.
Só que você foi embora cedo demais! Eu continuo aqui, meu trabalho e meus amigos, e me lembro de você em dias assim, dia de chuva, dia de sol... E o que sinto não sei dizer...
(Love in the afternoon - Legião Urbana)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Quem não tem namorado
Carlos Drummond de Andrade

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namoro de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.

Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas, namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado, não é que não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter um namorado.

Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa é quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar.

Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora em que passa o filme, de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'agua, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos e musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo, e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras, e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada, e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da janela.

Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uam névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteira. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

"Por mim, creio que estamos mortos há muito tempo: morremos no exacto momento em que deixamos de ser úteis." - Sociedade Dos Poetas Mortos
"Oh Captain! My Captain!"
Walt Whitman
"Sociedade dos Poetas Mortos"

sábado, 7 de agosto de 2010

Says something like, 'You and me babe, how about it?'
- Romeo and Juliet
(The Killers)
- Composição: Dire Straits